sexta-feira, 2 de junho de 2017

Serenata

Donde o pianista exprime aos seus cuidados
A mensagem sumamente indecifrável
Duma cantilena qualquer desconhecida
Aparece alguém por detrás dos vidros
O rosto em grandiloquência
      As mãos trementes.
O luar é um sortilégio feminino  diz 
É o que se não pensa  é o mistério
Das águas mornas flutuantes
Além das quais se já não vê
Nem se enxerga o mínimo estalo,
Porém o som 
     O som deste o tocas tu
Como se apenas olhando entrecostasses
     No universo nosso por inteiro.
Ó pianista qu'eu desconheço,
Continua a tua serenata
De cuja essência desconhecemos.
Continua  porque me não suportaria
Que a mensagem tua indecifrável
Contivesse de si mesma dentro nada
Que não quimeras de nossos sonhos.
Continua  meu caro maestro d'poesia,
Pois nós nunca suportaríamos viver
Sem a metafísica de tua linguagem.
Porquanto sem ela morreríamos 
E ao morrermos
     Tudo poderá morrer conosco.
Mais me vale acrescentar-me pois
A angustiar-me perante este mistério.
O mistério?
     Ora, não adianta imaginarmos-lo,
Basta que se ouça esta enigmática sonata,
E que nela mesma nos confundamos...
O dia passando sem mais nos vermos
E a vida sendo outra que não a vida.
Basta que pensemos
     Que somos muito mais do que somos,
     Que tudo seja mais do que é.
Pois Fernando Pessoa já se acrescentava
No simples e ingênuo manejo de linguagem
Com algo mais a mais para a sua vida
E a sua vida nunca fora apenas a sua vida
Por causa d'seu constante fruir d'som do mistério
Apenas em se usufruindo das palavras.
(Porque as palavras por si só contêm metafísica,
Isto Fernando Pessoa deveria já notar.)
Ouçamos então este som d'piano!
Como se fôssemos crianças à beira do riacho
Espantadas todas com este ouvir lânguido
     Do que se não entende
     Do que se nunca entenderá
E vivamos a vida a mais que a vida
     Sem hesitar em sorri-la o mais das vezes
     Sem hesitar agradecê-la sempre
Por podermos nós escutar esta voz sombria
Esta voz sombria e vislumbrante do mistério.