domingo, 18 de junho de 2017

O encontro

     O caminho pelo qual ele passa é sempre o mais do mesmo. Várias e várias pessoas circularam por ali, ensimesmando-se numa fala tropeçada e rouquenha, dizendo a si mesmas, constantemente, ali no imo do que se nunca encontra acesso público, que são especiais, que são peculiarzinhas e cheias de preenchimento e destino. E se por ora passam por capricho a apresentar em si mesmas algum erro ou alguma falha de índole, ainda que grave acabam dizendo para o espelho que é aquilo que as faz terem personalidade, e que quanto mais diferente se lhes encontrar essa tal "personalidade" adentro de si mesmas tanto mais queridas e melhores elas serão perante o vulgo, perante essa massa uniforme e cinzenta chamada vulgo - pela qual se é totalmente indiferente. E então, talvez muito por um defeito moral e metafísico, os homens acabam terminantemente presos em algo a mais. O que é este "algo a mais" e do que ele consiste eu não faço a menor ideia - talvez consista ele de tudo - talvez consista ele de liberdade - ou de maldade - ou de poesia e bondade - ou de nada - mas seja lá do quê for, e para o quê for, aquele homem que observo ali do outro lado da rua, a respeito do qual mencionei há pouco sobre o caminho, consegue, sim, sempre se erguer magistralmente adelante, a ouvir em fones de ouvido a Nona Sinfonia de Beethoven, sentindo-se quem sabe a melhor pessoa que o mundo pôde construir ao redor dum pleno marasmo de mediocridade. Com tais sentimentos tão símiles a vários dos demais, ele passa com arrogância na rua, olha com desdém as pessoas ao redor, nunca lhe passa pela mente que ali pela avenida existem almas, que existem vidas inteiras a fio que não descansam - que trabalham com honestidade, que roubam, que estupram, que matam, que são muito santas e também muito más, que são alegres, bonitas, simpáticas, nervosas, trágicas, cômicas, sórdidas - e para além também toda sorte de adjetivos que poderíamos elencar em cada um de nós, sem querer trespassar nisso um único estalo de lógica atuante. A nossa existência - e com isto discrimino esta que não se condiz com a linguagem nem com pinturas nem com obras de arte - a nossa existência pífia - esta que não comporta nenhum adjetivo intrínseco, e exatamente por isso consegue comportar qualquer coisa - quer queira, quer não, ela está sempre perto de nos tocar com a sua filha mais repulsiva. E foi exatamente isso que aconteceu com aquele homem. 
     De repente, uma sensação de ansiedade palpitante começou a aferroar-lhe o peito sem nenhuma razão aparente. Parecia que o seu coração queria fugir dali correndo para algum canto escondido - a sua enorme felicidade que lhe transbordava num instantezinho anterior rapidamente fizera-se nuvem, e de nuvem fumaça, e de fumaça fuligem. Sua respiração começou a ficar entrecortada, ele não sentia mais vontade de voltar para casa, e por isso parou, parou ali mesmo, no meio de uma praça onde muitas pessoas havia, e deixou de lado todos os seus pensamentos, para ficar só com aquela multidão extraordinária, "um empastado de seres que foram compostos pelas mãos de algum ser misterioso a que ninguém tem acesso", pensava consigo. Todas aquelas cores fortes e graciosas de outrora prorrompiam agora num embaraço tremendo de indefinição e tontura. 
     Segui em sua direção e sentei-me logo ao seu lado, num banco da praça. Dia claro, domingo perto de fim de ano, as nuvens todas cheias e saborosas percorriam um céu translúcido e azulado. Coisa estranha, toda hora que os nossos olhos se encontravam porventura, um de nós, sem pensar muito e de modo um tanto ligeiro, desviava o olhar como que com muita vergonha do outro. Eu - eu sou um menino simplório, uma criança como qualquer outro adulto, idiota igual também, manhoso a gozar um pouco a vida sem grandes compromissos, sem graves compromissos até de se ter de gozar plenamente a vida, amante formidável dos livros, das músicas, do amor, do sexo, da amizade e das crianças. Já ele - ele é um poeta-para-si, um grande-gênio-para-si, um glorioso super-homem, dono de si mesmo de um modo até estranho, rispidamente arrogante, solitário, querendo ser o melhor em tudo, até querendo ser melhor que os outros no que tange aos defeitos, e por isso sendo zombado até pelas pulgas por causa de sua pretensão. 
      Nós trocamos pois mais uma vez uns silenciosos olhares...
     É curioso - eu estou aproveitando a praça, as crianças que por ela passam, os mendigos mesmos, o som abafado dos carros, as buzinas, e tudo isso me representa de certa forma um concerto, não diria que mais sublime que as sinfonias de Beethoven, por razão de serem duas coisas em muito distintas, mas mesmo assim tal concerto teria lá as suas valias - assim como a imagem que se me pinta ali naquele momento não é em nada uma pintura transcendente de Césanne, mas também nunca deixa de ser tão maravilhoso e perfeito quanto o seu grande pinheiro. São coisas diferentes, eu bem o sei - mas a poesia, o mistério, o divino, o além-do-real, o além-do-sensível, o metafísico, a nossa subjetividade mesma - cada coisa dessas se encontra ali escondida, seja na arte, seja na vida, num tergiversar constante do real. O homem austero então olha para mim, eu olho para ele, finalmente encontramo-nos com os olhares, e assim ficamos nós durante dois minutos ou mais, sem falar nada um para o outro, apenas um contemplando placidamente o outro sem mais nem menos. Às vezes eu dava umas risadas, ledas e acanhadas risadas, e ficava com um bom humor carregado no meu rosto singelo e nipônico, e ele me observava com ódio. O peso imenso que carregava em cima de suas costas deveria ser insuportável. Ele esboçou retrucar a mim o meu sorriso, alguma coisa odienta e purulenta, mas ficou quieto, ouvindo ainda Beethoven com os seus fones de ouvido. Eu, numa insolência despensada, claro que cheio de vergonha, resolvi por conseguinte tirar-lhe os fones de ouvido, e assim o fiz num átimo. Falei-lhe depois, com uma meiguice até estranha:
     - Olá, irmão. Como estás?
     E ele ficou estático, e lentamente começou a mudar de forma, talvez por causa da leveza de minha aparência, ao mesmo tempo em que eu mesmo também passava a ficar mais pesado ao vê-lo, mais corroído por dentro, e era como se as nossas ambas energias totalmente opostas entre si se misturassem e dessem forma a algo intangível e cheio de sutilezas, ao que eu finalmente lhe discorri, dum jeito amaneirado e agradável, como se aquilo que eu estava prestes a falar estivesse entupido há muito tempo em minha garganta:
     - Eu te amo, irmão. Tu to não sabes ainda, porquanto não o compreenderias, mas eu queria lho falar: eu sou tu, e tu és eu, e por isso eu lhe falo assim tão sincera e abertamente. Eu te conheço tanto quanto a mim mesmo, dado que este mim és tu. Pois por mais diferentes que sejamos podemos nós formar um todo unido, e isto é incompreensível logicamente, eu sei, mas é mesmo assim alguma coisa bonita. Tu entendes isto? Este mundo por exemplo: ainda que hórrido e burlesco, sem as crianças que ele contém seria algo horrível na minha opinião, careceria de algo imprescindível. Da mesma forma nós - se cada um de nós não tivesse uma criança choramingona dentro de si, uma criança ingênua e descuidada, que necessita de um consolo, de um carinho, de um algo a mais, de um regaço para chorar e se entristecer - o que seria de nós?, o que seria de cada um de nós, irmão, sem isso? Se cada um já nascesse por si só um super-homem, e nunca houvesse peso algum na consciência nossa, e a angústia e o nada nunca nos esquartejasse com a sua catana sangrenta os nossos corpos, a nos destroçar todos, o que seria de cada um de nós? Seríamos Deuses de fato, com certeza, e seríamos felizes, tu responderias - mas digo-te que para mim ser um Deus é ser quase um robô, um estúpido e insensível robô, que possui a resposta de tudo, e nada na sua consciência o faz nunca mudar de ideia, e ainda ele estaria terminantemente certo, e nós todos estaríamos também terminantemente certos de tudo, pois qual seria a graça disso tudo?, que liberdade teríamos nós perante isso?, e o quão estúpida não seria a nossa poesia se nós não fôssemos livres? Talvez estejas mesmo certo, seria melhor que não houvessem crianças nem vazio dentro de nós mesmos, que fôssemos todos auto-suficientes por nós próprios - mas eu digo que se isto fosse realidade estaríamos presos num ponto inócuo e tépido, não haveria o que mudar, meu irmão, e nós morreríamos de tédio, de indiferença e de tédio, assim como nós, eu e você, seríamos outrossim por demais simplórios se houvesse apenas eu ou apenas tu. Entendes isto tu? Por isso que formamos nós, de forma mesclada, na verdade uma só pessoa. E, irmão, eu lho digo com sinceridade, isto é belo, isto é terrivelmente belo.
     Depois que eu acabei o meu discurso, alguns pontos pequeninos de lágrimas fragilizavam-lhe o rosto antes sério e sisudo. Ele ainda não falava nada. Às vezes me olhava, às vezes olhava para as árvores, para as pessoas, mas nada o fazia querer sair dali, talvez até quisesse me expulsar, pensando que eu lhe devotava uma série de bobagens. A ideia do suicídio certamente lhe revolve a mente, eu pensei, nada o fará voltar ao nosso mundo por enquanto, e tudo o que eu falar talvez não passará de mera idiotice. A não ser uma palavra dócil de conforto, dum grande amigo ou dum grande amor seu - a não ser isto, ele nunca voltará ao nosso mundo. E, o que é pior, ele está mais perto da verdade da natureza do que nós mesmos, assim como G.H. diante da barata.
     Num instante, ele arregala os olhos, prensa e chacoalha as duas mãos firmes em seu rosto, solta um suspiro profundo e amargo, e me diz com olhos silentes e marulhantes:
    - Às vezes nós precisamos nos deixar cair dentro de nossos próprios abismos para ter uma noção do tamanho desse abismo que possuímos adentro de nossas almas. Eu acho muito ingênuo teorizar algumas coisas que nos rodeiam e nos cercam, como por exemplo o que você mencionou no começo desse conto-poema, a respeito de eu me achar uma pessoa peculiarzinha. É claro que você está certo, mas eu te preveniria de escrever tanto sobre tais coisas como se você fosse muito maior do que tudo isso, e todas as pessoas para as quais você olha fossem apenas objetos de estudo inferiores a ti, entende? Ocorre que você, ainda que use dessa sua linguagem toda requintada para se comunicar comigo, com ideias muito sábias puras e espirituosas - você talvez também não saiba o que é sentimentalmente entrar nesse vazio horroroso no qual estou presente agora. É muito fácil para você discorrer sobre tal e tal coisa a respeito dos seus assuntos intelectuais, sejam eles sobre pessoas ou coisas, mas quem está sofrendo de verdade não és tu, sou eu, são as pessoas, e elas todas têm vidas, almas, sentimentos, sensações, poesias, família, amigos, insignificâncias, elas todas possuem tudo isso e você não sente um pingo do que elas sentem, porque simplesmente você não é elas. Vá lá que tu sejas mesmo elas como um homem abstrato e universal, como que numa fórmula matemática, mas mesmo assim não é você que foi estuprado, que foi arrogante, que ficou angustiado até a morte, que sofreu por escassez de dinheiro e comida, que foi acintosamente medido e desprezado. Não - você é você, e elas são elas. Como você mesmo é dono desse conto e eu estou submisso a você na hora em que o está escrevendo, então eu não posso fazer coisa alguma, e você ficará sempre (permita-me o uso do sufixo) você ficará sempre superiorzinho a mim, em todos os momentos em que escrever as suas estórias, tomando-as todas como a descrição da "verdade" das coisas. Ocorre que eu não acredito em verdades, e muito menos em Verdade. Eu sou sórdido, estúpido, angustiado, arrogante, mesquinho, tosco, contraditório? Sim, eu sou!, e não escondo isto de ti, e ainda isto por orgulho, e para ser melhor do que todos os demais!, porque na minha cabeça quem esconde essas coisas é que é o inferior!
     No final de seus dizeres, algo então se apossou subitamente de meu espírito, e a coisa toda se invertera num repente, pois que no exato momento em que ele dissera tudo aquilo ele se sobressaíra perante mim, e eu é que fiquei prostrado diante de seus pés, ferido no orgulho e ridículo. Ele então começou a gargalhar estrondosamente diante de mim, soltando vários risos sarcásticos, e sabendo que ele mesmo era eu, e portanto tendo um prazer especial em me ver sofrer, em se ver sofrer, em me ver ferido, em se ver ferido em seus sentimentos superiores. Ele, ou melhor, eu, tínhamos nós um grande prazer em nos ver sofrer. Passamos portanto nós dois ao terceiro momento de nossa estória - o no qual nós dois nos demos então um beijo ardorosamente apaixonado na boca um do outro, e falamos assim, meio berrando para todos os presentes da praça em que estávamos, em meio aos nossos risos ferinos, como se compreendêssemos de repente o lado cômico da vida trágica:
     - Glória ao Altíssimo! Glória ao Satanás! Glória à vida por inteiro!, sem desconsideração por nada, por nada, pois que tudo merece atenção, tudo merece ser contado, tudo merece ser notado, tudo é importante para nós humanos, na arte como na vida. Tudo, tudo, tudo! Que tudo nos contamine e nos destrua e nos encante! A-amém!