sexta-feira, 26 de maio de 2017

Solilóquios XVI

A calma é a mestra da virtude - assim como a serenidade, o equilíbrio, a sobrieza, e o mais estrito controle das nossas paixões, as quais comumente se desguiam, como uns descarnados cavalos açoitados, rumo a algo que nunca nos fora de natureza própria seguir. Por isso vos digo - não vos prostreis diante de vossas desordens da carne e do sensível - mas que te guiem a ti mesmo o trefegar intenso de vossa razão, e que esta seja a vossa verdade também para todas essas nossas almas que se perbulham num catatau imenso de polifonia lírica. Há hoje um sem-número de vozes atônitas a se desvelar em ser, a querer sempre se caracterizar de modo diferente da Outragem, num misto contínuo de vaidade e resolução, e nisto vemos a mesma batalha rotineira de egos se perdurando na história, a partir da qual eu solto um longo e lânguido bocejo de sono, e em que alguns poucos conseguem fazer aquietar a boca uns tantos outros milhares de pessoas ao mesmo tempo, dando a todos nós a ingênua impressão de que só existe um rumo de história na História, um só pestanejar de filosofia na Filosofia, e apenas uma metafísica na Metafísica. Mas eu vos digo com firmeza que tudo isto é não obstante uma tremenda bobagem. Um dos modos mais profícuos de se arrebanhar um golpe plácido de sabedoria para mim é não mais que um rebaixar-se constante mediante o desvelamento do ponto de vista de cada ser aqui na Terra, de modo a colocar de igual para igual todos os nossos mestres santos, literatos e filósofos, e ainda pessoas quaisquer que vemos constantemente nas ruas, sejam elas de quaisquer tipos a que possamos imaginar, sejam elas as nossas maiores inimigas ou não, sejam elas imorais ou não. Porquanto tudo nessa vida agrega perante si mesmo uma razão única de ser e de existir, e não é à toa que as discussões dentro dos edifícios não se findam nunca, e provam, como bem preleciona Drummond, apenas que a vida prossegue. Pois bem - que a vida prossiga numa senda infinita de luscos-fuscos, prelúdios e verões, isto não é nenhuma novidade para ninguém, mas o que eu proponho a ensinar a cada um de vocês é que a maneira de se olhar para o mundo se imiscui ardorosamente no mundo olhado, e é por isso que tanto nos importa a moralidade a metafísica e os valores - porque são sempre eles que destacam a posição legítima de cada ser humano presente neste universo. Por conseguinte, ainda que eu olhe atentamente para cada tipo de pessoa que nos rodeia, e tente num esforço desmedido me colocar numa posição delas mesmas a tentar projetar o meu próprio olhar sob os seus respectivos pontos de vista - ainda que isto eu faça, e o faça bem, digo que não é possível me colocar por debaixo delas todas enquanto eu escrevo, e assim eu sou igualzinho a elas, achando que a minha moral, baseada sempre na razão e no controle dos instintos e do cinismo, e o meu ponto de apoio perspectivista das coisas é sempre melhor e mais sábio do que todos os demais - ao que tu podes muito bem e com muita razão perguntar o porquê de eu ser melhor do que tu na minha opinião, coisa que eu rapidamente responderia que é pela mesma razão pela qual tu me achas inferior a ti por eu ser de cultura diferente da tua, de metafísica diferente da tua, de eu não ser lá um europeu como tu, um ateu como tu, e sim um nordestino cristão a perambular pelas ruas e esquinas de São Paulo, sem razão nenhuma de ser que não pela própria literatura. Vá lá que eu tenha muitas esbórnias medíocres e ridículas dentro de mim mesmo, e isto exalte a minha insignificância perante tu, porque tu me chamarias hipócrita ou otimista ingênuo por tu leres por aí tantos escritos ladinos de literatura - ainda assim eu prefiro me isentar das paixões da vida, especialmente das paixões carnais, perlustrá-la com o desígnio da razão e do ascetismo, e tentar precisar de pouco para com pouco viver e com pouco bastar, como tudo basta para quem não é em demasia invejoso ganancioso ou presunçoso. E assim é que eu poderei morrer tranquilo, aproveitar a vida como um cachorrinho bobo de estimação, ainda que com esta idade de vinte anos, a fazer um apanhado de tudo quanto eu vivi assim como o Brás Cubas, mas que, à revelia deste nobre senhor da literatura que muito estimo, eu possa proclamar alegremente e com muita doçura comigo mesmo e para o meu Paizinho que tenho certeza que encontrarei no pós-morte: Senhor, alegrai-vos, pois que eu não fora mais do que mera criança nesta vida! Ora bolas, uma criança intelectual, haveria coisa melhor neste mundo?...