domingo, 14 de maio de 2017

Poema dum bêbedo literato

Eu sou um literato, moça - e um homem doente - e nada mais. 
Tu querias que eu fosse o quê - afinal? 
Os meus personagens? Os meus poemas? A minha pobre poesia metafísica? 
Qualimagem tu tinhas por acaso dumscritor? Aqueles seres oníricos - santos.
Belos, bem-vestidos, escanhoados, sentimentais, loucos por amor.
Oh, não! Ou tu querias que eu fosse que nem aquele doido ressentido? 
Aquele que falava assim: Merda! Sou lúcido. - Ou... 
Arre! Estou farto de semideuses! / Onde é que há gente neste mundo?
Qual tu querias que eu fosse? - Hein? - pobre rapariga - 
Vens toda cheirosa aqui à minha casa pedir um autógrafo - 
Tu pensas por acaso que é quem?! - Cof-cof-cof - Vir aqui assim,
Sem mais nem menos, toda produzida com este decote dos infernos! -
E eu estou agora cá bêbedo de absinto - Há! há! há! -
Tanto bêbedo que seria capaz até de me suicidar aqui mesmo, num ato,
Que tal? Farias isto por mim? Pegarias este revólver e mo apontaria 
Calmamente nesta minha testa miúda de romancista idiota? Vou lhe dizer
Igualzinho tal qual a poesia, para ver se te interessas mais:
Leda face mais pura dmeus encantos, / Virgem minha Lídia eu renasci,
Poderias por obséquio conceder-me agora / A honra de ser morto por ti?...
Ah!, agora esse mesmo semblante assustadiço de sempre,
Estas pessoas não crescem nunca... Sempre acham que somos uns santos
Muito diferentes desses nossos personagens que descrevemos por aí.
Sempre se acham umas inocentezinhas - e esta é talvez a maior das inocências!
Bem... bem... bem... (.............) Quá-quá-quá! - Pois não? - O que tu queres?
Queres transar? Te apaixonaste por mim por acaso em algum bordel?
Vieste aqui trazer-me e oferecer-me toda assim ao meu bel-prazer?
Pois que eu te digo e te repito, e te repito tantas vezes quanto quiseres:
Eu sou um homem doente. Mas não sei que doença é essa,
Talvez loucura eu não sei. Certo dia me viram agarrado em um cavalo,
Me levaram pro hospício, mas eu de lá fugi todo estropiado...
Em que mundo estou vivendo?, minha pobre rapariga, me diga...
Sabe que as pessoas em geral costumam acreditar que a gente é génio?
Isto é engraçado - porque o assunto é apenas que lemos aos diabos
E temos todo tipo absurdo de referências para esconder do nosso leitor.
Qual! - Lê tu o tanto quanto lemos - e o quê lemos - e verás por ti mesma -
O que é a literatura - mundo mágico onde nunca se necessita precisar fonte -
E veja por conseguinte os plágios se catatonizando que nem feras no circo!
É um espetáculo! - Quá-quá-quá! - Se soubesses tu nem admirar-nos-ias.
Que isto fique entretanto apenas entre nós, pobre moçoila - Aliás...
Quem és tu? - Donde vieste? - Onde estamos agora? - Que é'ste breu tenebroso?...
Arre! Com os diabos! - Cof-cof-cof - Aquele sujeitinho ali fica me olhando
De um jeito vil, de um jeito torto e enviesado - o que é que ele tem, hein?
Será que ele estará nos julgando, nos fazendo peixe de sua isca?
Será que ele estará rindo de nós dois - ou apenas de mim mesmo?
Quem ele acha que é? - me olhando assim desse jeito - com tanto desprezo.
Eu estou lendo na sua torneada face: "Como é ridículo este sujeito!
Um idiota!" - Merda, merda, merda!... Garçon! Traga-me mais um absinto!
Esta moça me não quer matar! Sua puta! Mas o dia é hoje! Deixe-me!
Eu faço isto. O dia maior de todas as minhas glórias!
De todas as glórias de um idiota! De um verdadeiro ressentido!
Deus, olhas Tu por acaso com benevolência aos grandes ressentidos?
Pois que deverias - muitos desses fazem História!