domingo, 23 de abril de 2017

Solilóquios XV

Desde quando eu me dera conta daquilo, sempre fora para mim algo esplendidamente suntuoso tocar-lhe em tudo quanto se lhe fizera parte, seja isto a glande, o prepúcio, ou ainda mesmo muito naturalmente a bolsa escrotal de eu menino com os meus sete anos de idade, cada resquício ali de textura compondo emparelhado harmoniosamente um pedaço a que chamam de muitas palavras consideradas feias num senso comum maior da sociedade - mas... quá-quá-quá!, vamos, faça coro comigo aqui do meu lado, diga bem alto de si pra si, com as duas mãos levantadas tal se estivesse benzendo um deus: que se foda esta sociedade hipócrita! Bem, e eu hoje aqui mergulhado dentro de mim mesmo, como um mesquinho retratado encurvado e seboso num desses filmes maniqueístas da Disney, sempre a maldizer a sociedade, sempre a tratá-la com a mais acintosa ironia no fundo de minha garganta reprimida - e pois o que tu pensas que eu acho a respeito do menino de dez anos que eu fui outrora no colégio, aquele garoto tímido que quase nunca se achegava perto de ninguém, medroso sempre de que o julgassem às escâncaras? E este menino bem que sabia não ser julgado, ele sabia se portar de uma maneira um tanto sábia e comedida para que todos vissem como ele já naquela idade podia ser considerado um velho sábio e honrado, ao que eu arriscaria dizer que a mesma lógica poderia ser cumulada nas pessoas que de fato são velhas sábias e honradas. Mal e mal, pode-se dizer, sabiam portanto as pessoas que ele carregava uma tempestade na alma, um projétil em disparadas de sentimentos os mais profusos e desordenados, como avalanches que não sabem o que são paramentos de intensidade - e tudo sendo radicalmente refreado com e através de sua inteligência. No fim, chegava-se ao cúmulo da dissimulação, do projetar-se habilmente nas esferas da atuação sendo o mundo ele mesmo um palco de teatro onde várias pessoas fantasiam-se de uma série infinita de personagens que se acham as melhores pessoas do mundo, crentes da mentira que elas próprias criaram para se sentirem queridas por si mesmas, e que sabem como julgar e matraquear malévolamente a respeito dos sujeitos que acham asquerosos e repulsivos. Esta máscara que me fora impressa e lavrada em meus anos de juventude perdura pois até os dias de hoje, ao que com isso costumo satisfazer todos os meus desejos carnais que se apinham em minha mente animalesca. Digo já desde logo, tenho 18 anos de idade e posso contar com umas trezentas bocetas elencadas primorosamente como o fruto da mais pérfida eloquência. Tu pensas ainda que eu sou em demasia jactancioso quanto a isso? Pois bem, eu digo então que estás certo, que eu sei me gabar fielmente das minhas mais grandes conquistas sem me recorrer a falsa modéstia nenhuma, sem recorrer a nenhum intrincado de hipocrisia por cujo meio as pessoas costumam se fazer valer para ganharem público, para ganharem sons de admiração e aplausos. Na vida real, na maioria das vezes mentirosa, eu fico me rebaixando aos outros com toda a naturalidade e espontaneísmo rotineiros, as pessoas me olham e me admiram, as mulheres vêm todas fasceiras disputar espaço na minha presença, doridas por um pênis que se lhes possa aconchegar e as fazerem se sentir completas no mundo, cientes de que um homem se importa para com elas e as acha especiais de alguma maneira. Mas aqui, neste meu pequeno espaço literário, não me importa muito a noblesse. Por favor, meus queridos, deixem a noblesse de lado, retirem-se de si mesmos toda a cargamassa que lhes dão volume e peso nas suas existências, todo tipo e espécie de dever-ser que se lhes amontoa no espírito, porquanto noto eu, como um estranho cientista del'alma que sou, que quando isso acontece, ou seja, quando o dever-ser começa a ser descascado e desmascarado do ser, em todas as suas camadas pesadas e espessas, o ser se impõe de uma maneira tal que eu acho tudo isso maravilhoso ainda que tremendamente hórrido e feio. Eu amo demasiadamente a verdade para ficar me importando se alguém é pedófilo e sente desejos sexuais por crianças apesar de não fazer nada, ou se porventura acha com convicção que pessoas de certas cores são inferiores, ou que outras de certos tipos de olhos são submissas, estranhas e idiotas. Assim, repito eu alegremente as palavras de Fiódor Pávlovitch Karamázov, a dizer que quando eu estou convivendo com a sociedade e ela o mesmo comigo, eu prefiro bem mais que tudo o seja feito plus de noblesse que de sincérité, ao que na literatura, eu, ao contrário, gosto de que em minha fala e atitude haja plus de sincérité que de noblesse, e é por isso que estou agora escrevendo este solilóquio me lixando para a noblesse. Que eu haja saboreado umas trezentas bocetas e peitos, isto eu o digo aos senhores com a maior gentileza de um gentleman possível, e se tu fores me achar um gabarola por isso, que me aches então, ao que eu direi: foda-se tu. Já pensei em escrever um livro a respeito de algumas análises minhas que se poderiam passar para a posteridade de como se conquistar uma mulher, e penso mesmo que ele teria um tal tom que em muito se assemelharia com o famoso livro de Maquiavel Il Principe, e isto porque nesta minha análise eu rapidamente atrelaria o poder e a boceta como dois polos de uma mesma moeda. Talvez não haja mesmo façanha maior do que esta, qual seja, dizer em voz alta e com percuciência que as pessoas amam muito mais a harmonia e a beleza das formas externas do que propriamente o seu conteúdo interno, e nisto está também presente toda a chave política e sedutora dos homens, quer se queira domar a fortuna, quer se queira domar a boceta. Mas, entretanto as suas objeções já estão vindo a mim como que com muita raiva de me ver existir, a mim com quem até agora tu querias mesmo conversar ou tinha lá as suas invejas por uma bendita razão qualquer. Tais objeções consistem precisamente em que as mulheres são hoje consideradas como que de igual para igual com os homens, e portanto não há que se ter de dizer nada disso que eu venho falando até agora. Coisa interessante, eu digo, pois que, eu acho, disto resulta tão somente que se antes as mulheres se submetiam e se sujeitavam também a homens feios e poderosos para se elevarem no status social por meio do casamento, e isto por vezes era uma penúria, hoje elas não precisam se importar tanto com o aspecto político do poder quanto com a outra face da moeda chamada beleza - ou seja, poder não tanto econômico-político quanto estético. E é por isso que temos hoje uma sociedade em que a mulher pode livremente escolher um rapaz belo, bonito e educado para se casar com, e ainda, caso lhe convenha, pode-se se separar dele num átimo só, cujos transtornos se valerão posteriormente na esfera jurídica. E sabe o que eu digo dessas meninas que se dizem feministas?, que se exaurem a propugnar que o poder não mais é importante para a escolha de um parceiro, que somos muito melhores que isso, e que o cavalheirismo é uma espécie de machismo? Eu digo que são umas benditas dumas hipócritas - assim como eu outrora me detivera fascinado pela sutileza do pensamento de um piche em letras garrafais numa avenida grande aqui de São Paulo - estava assim escrito: "Elite intelectual? Você continua cagando como qualquer filho da puta". Sim, eu acho que a ninfomaníaca de Lars von Trier está correta ao dizer que the human qualities can be expressed in one word: hypocrisy. E sabes como que eu cheguei a isso? Sendo um sedutor, me ornando com a mais bela roupa e os melhores carros e os mais intrincados aparatos do intelecto e a maior humildade cristã possível; tudo isso combinado com uma beleza de face e de corpo, assim todo imbuído de dissimulação e falsidade, me deram várias e várias bocetas a suculentamente me condoer a beijar e a comer, assim como se devora um churrasco com forte fúria de apetite. Aliás, está aí outro fator que talvez seja importante: a fúria - ou melhor, em termos de Maquiavel, a ferocia e a audacia. Lembro-me vagamente de uma vez em que uma pobre menina ingênua muito se continha a transar comigo, por razões familiares e religiosas, e eu estava imbuído de tamanha turbulência de espírito, tomado tanto pela mais execrável libido que se possa imaginar, que eu rasguei brutalmente as suas roupas de cima a baixo, e mordi com hórrida virulência o seu peito e aqueles lindos bicos rosa-claro e todas as partes mais sinuosas de seu corpo frágil e virgem, tal qual uma pétala lisa de marfim onde eu podia me escorregar com a língua sem quaisquer entravacamentos. Aquele sentimento de posse de um objeto que me oferecia tamanho prazer era simplesmente o meu altar onde eu fazia a minha oração quase todas as semanas, cada qual em um oratório particularíssimamente diferente. O corpo da mulher sempre fora para mim algo como a Bíblia para os santos, ou a Vida para os filósofos-literatos, no que se lê a cada vez de um modo diferente, e também se tira a cada vez uma interpretação diferente e nova, não vislumbrada nas leituras anteriores. Pois que a minha ejaculação se fizera promontória após exatos dezessete vaivéns ríspidos e enérgicos, ao que a menina posteriormente veio a gozar num êxtase descontrolado, remexendo-se na cama vorazmente qual uma cadela no cio, um instante teóforo para ela, uma manifestação de todo um universo divino calmo e harmonioso em instantes intensos de prazer. Uma menina santa, verdadeiramente santa, e eu o seu anjo, pensei. Naquele mesmo dia, eu bem que me lembro, eu fiquei seriamente a olhar pela janela a minha estranha cidade cinzenta de São Paulo, com uma questão exorbitante em minha cabeça: pode lá alguém gostar porventura de ser violentado?, eu digo, ter prazer no exato momento em que se mexe em seu sexo à sua revelia?, e assim gozar no estupro, assim como se tem prazer em estuprar alguém? Fiquei meditabundo nisto a madrugada inteira, devaneando que nem um filosófo austero no meu canto escuro do quarto... O que eu fizera com todas elas, o quanto eu as magoara por causa dos mil juramentos românticos mesclados com um posterior e rápido esquecimento desdenhoso, e as relações forçadas com pessoas que a mim não correspondiam - com isto tudo eu não me importo nem um pouco. Como eu dissera antes, que se foda esta sociedade hipócrita, eu quero é somente gozar, gozar, e gozar. Mas nada disso se diz e se fala e se concentra em na vida real - tudo isso são verdades mentirosas, ou mentiras verdadeiras, frutos tão somente da minha imaginação intelectual, para que tu possas analisar o ser humano, para que tu possas se aproximar do ser humano, para tu possas me odiar profundamente, com todas as suas forças. Sim, é claro! Vai lá e me odeies, me odeies como quiseres. Mas cabe a importante ressalva de que eu deixei passar por alto tudo quanto a sociedade num geral julga bom e humano em mim - ainda que com isto eu também não me importe. No entanto, isto é objeto de um outro qualquer texto literário - não esse...