segunda-feira, 6 de março de 2017

Num metrô de são paulo

Os meus olhos percorrem sonolentamente, como quem destila uma pintura de van gogh, como quem se desvanece por dentro de um filme de aronofsky, toda a extensão empastada de uma multidão sacolejante de almas, borbulhantes em seus deuses, em suas metafísicas, em seus tudos e em seus nadas - presentes todas num metrô lotado de são paulo, linha vermelha, de oeste a leste, numa guinada de sísifo que não acaba nunca, um pedacinho da existência d'mundo, um pequenino erlenmeyer sinédoque d'mundo grande e vasto, uma microquímica existencial dos cosmos intravagantes e extracorpóreos, que se transcorre como um líquido pastoso de mel caindo lentamente por sobre os meus olhos, esta pintura-filme gelatinosamente real, impavidamente real... almas queridas? vis? cínicas? espirituosas? epicuristas? - eu não sei, eu não sei, para que teria eu de saber, eu que não sei o que sou? - talvez todas elas são boas para-si, todas talvez são inocentes e justificáveis para-si e por-si, e desta maneira cada uma percorre vagamente o seu gargarejar da existência, e cada uma também transvaga inconscientemente por cima ou por baixo de cada uma, sem que se tenha de pensar em nada, sem que se tenha de se dar por nada - pensar afinal em quê?, para quê?, por quê?... foda-se o mundo, diz o outro, tomando um gole de coca-cola, fumando o seu cigarro cinzento, tragando a sua metafísica enfiando o seu pênis bonito dentro de umas tantas vaginas, que de tantas já se não dá para contar - almas... almas... almas... almas... para que tantas almas, meu deus, pergunta o meu coração - e eu que pensava que a minha já bastava, hoje penso eu que a minha já não basta nem bastará em nada - pois olha isso!, atenta-te a isso!, te aficciona a isso!, fica aqui parado, ao meu lado, se me esfregando o teu corpo animal todo em mim e nestes homens e mulheres à nossa volta, suores escorrendo com umidade o pescoço daquele senhor obeso e opaco, a alegria incontida e doce duma japa que acaba de marcar um primeiro encontro com o seu crush, o olhar terrivelmente triste duma negra gorda se envenenando e se esfumando aos pouquinhos, como goles dágua, com o caralho de todos nós (filhos da puta, pensa ela, e amanhã mesmo magica em se jogar duma ponte), e veja então essas almas!, veja essas almas e os seus respectivos corpos, almas essas desprovidas todas de completude, com um vão desmedido de carência, na finura perpétua de suas translúcidas madeixas, que se entralaçam umas nas outras irmanamente com o amor que jesus veio ensinar (ou seria o amor voluptuoso do eros, ou ainda a philia, uns amores esses mais puros que o cristão?); - constantemente, os homens percorrendo o seu destino de serem felizes ou tristes, com alguém ou para alguém, sempre afeitos um ao outro porque precisam de si entre si para si, apesar de muito se odiarem também, apesar de muito se amarem também - e eu não sou diferente em nada, e nem o serei também por nada menos nada; consciência e estudo e livros e cultura me tornam melhores do que tudo isso?, mais santo que tudo isso que estou vendo e em que estou me esfregando por não mais caber pessoas em parte alguma neste metrô? - não, eu sou igualzinho a todo mundo, e todo mundo é igual a todo mundo, para de se iludir de se pensar um gênio, um magnata crisântemo nascido para tal, de se pensar um psicopata ou dono de caracteres especiais psicológicos, de se pensar um indíviduo especial e único!, não há seres únicos, há apenas um amontoado formidável de animais fantasiados de homens, de seres humanos, de homo sapiens sapiens, e isto é só um nada com máscara de tudo, é como uma barata com aparência de hércules, com cheiro de gardênia, e com um gosto dulcíssimo de se amar subitamente um príncipe encantado... - e eu fico assim parado ali olhando e vendo e pensando em cada coisa dessas, me nutrindo, à maneira de álvaro de campos, de tudo e de todos e de todas as coisas, e cada nota de piano ali tem a sua função no todo, não sendo a nota mais grave melhor que a mais aguda, nem vice-versa, e tudo isso se me enche dum resfolegar prenhe duma sonata pouco visível a olhos nus, uma sonata maior do que a de qualquer conto de górki, uma xilogravura mais translucidamente bela do que a de um fernando pessoa; - é uma sonata belíssima!, com alvores de sexo de sonhos de metafísicas de pesadelos e de luares, e uns burburinhos de vozes aqui e ali como no cinema, e outros sons mais alardeados de preocupações ou êxtases, cheios de ódio, cheios de rancor, cheios de amor, mas tudo pertencendo mesmo ao quadro palpável de cores e sons e formas concretas; pois que eu abro por conseguinte um sorriso de poder conseguir captar a tal sonata, e fico muito feliz e muito triste de poder e ter que fazer parte disso tudo: eu, o poeta decadente e desconhecido e humano e eternamente tosco - eu, o poeta das pinturas-filmes em prosas poéticas humanamente reais - eu, o poeta dos olhos sonolentamente pesados por sobre este metrô das horas tardas e pensas.