quinta-feira, 9 de março de 2017

Canção duma paixão ao relento

Por que razão você se faz uma pessoa tão inferior a todos os demais, e me acha superior a ti?
Por que razão você não vem aqui e simplesmente me beija com força, com paixão, com vida,
Me embala por dentre os seus braços delgados e toscos, como s'eu fosse a sua pluma d'sonhos?
Por que motivo você se deprime tanto com o mundo e principalmente consigo mesmo
Se fazendo a pessoa mais débil vil e inumana que há, a mais detestável e tediosa pessoa,
Sendo que tu mesmo é talvez o mais humano e o mais santo de todos os homens
Na sua completa sensação de inumanidade exorbitante, na sua deplorável qualidade de diabo?
Talvez você seja só o mais lúcido dos homens e por isso fica assim cabisbaixo e inerte
Talvez você apenas se ache uma pessoa desprezível por não se colocar no lugar do outro
E você vê o outro sofrer - e não diz nada, e não faz nada, e se culpa muito por isso,
Mas eu digo que ao menos você se importa para com isso, porque muitos há que nem ligam
Para isso e nem ao menos para o mundo e nem ao menos para nada que não seja
As suas próprias seguranças, as suas próprias carreiras, os seus próprios confortos.
Por isso quero que você fique ereto, se imponha mediante os outros, se revele para mim
Como você realmente é dentro de si mesmo neste mundo dentro do qual os fracos não têm vez
Pois o que eu vejo quando a ti vejo é algo surpreendente ainda que cheio de coisas ruins,
E você aspeia muito facilmente essas suas cruentas partes d'espírito que lhe corroem a alma
Se achando a toda hora o pior dos homens, o pior da espécie humana nesta Terra
Quando na verdade todos os homens bons a que tu admiras são iguaizinhos a ti
Com a exceção de que se fazem admirar através dum mito no qual se transfazem como n'arte...
Esses seus grandes mestres santos e filósofos são uns atores que engendram a máxima poesia
Por cujo lume tu te guias como se fosse um cego, sempre a procurar o melhor das pessoas
Sempre a achar que as pessoas são melhores do que ti - e sempre esperançoso por boas índoles
Captando as forças correntes da vida com uma melancolia e intensidade própria dum génio artista.
E neste tremular doidivanas você se perde, você se enfurece às boas, você fica doente de depressão,
Você vai às casas das prostitutas se satisfazer com o seu pênis impotente e sempre carente
Porque toda a sua maldita energia corusca em cataclismas dos teus neurônios compulsivos
De tanta aplicação aos remeixos cósmicos da arte, de tantas cismas frenéticas do pensar.
Aliás, quanta pura energia loura e louca tu não investiste na arte?! Quanta! quanta! quanta!
Me dize isto! - o quanto da vida tu não te privastes para que pudesses se dedicar à pintura?
O quanto de mulheres já te não rejeitaram por tuas estranhices calamitosas de artista?
E você sempre a pensar que o errado és tu, que o idiota o doente o ingênuo o perverso és tu!
E talvez realmente sejas, sob o ponto de vista de todas as pessoas comuns deste planeta,
Mas eu sou uma mulher que te amas como se amasse carnalmente a uma poesia cristã,
E eu te coloco ao meu lado a toda hora para que tu possas me ver como uma pretendente,
Porque eu queria mesmo fazer parte desta tua vida intensamente louca, ácidamente louca,
E o quão louca é a tua vida é algo a que eu não saberia entender - mas eu te amo, eu te amo!
Não me rejeites assim tão rápido - me dá um beijo, me abraça, me ama como a ti mesmo!
Não vá embora! não se perca neste absinto, neste ópio, nesta intensidade dos sentimentos!
Me pegue com jeito, me abraça com o teu carinho morno e suave de viver, com a tua melancolia,
Me faça triste contigo, me faça alegre contigo, me faça um universo whitmaniano contigo!
E que os nossos carinhos e as nossas brigas do cotidiano revelem então o que é tão impróprio
Aos conspícuos acadêmicos e intelectuais de toda ordem, os quais não entendem a simplicidade,
Os quais acham a simplicidade das coisas a maior ingenuidade patética da vida - e que tolos são!
Venha, venha, me leva pra cama, vamos curtir um bom momento juntos, pra sempre juntos, juntos.
Juntos até o final da vida, juntos na arte, na poesia, no romance, no que se há e haverá no porvir...