sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Solilóquios XII

Eu sou descendente de japoneses; tenho quarenta e três anos e três filhos; sou divorciado, trabalho como executivo de uma grande multinacional, e vivo muito bem. Moro aqui na capital de São Paulo, cidade construída inteiramente por ruas, metrôs, avenidas, trens, bosques, shoppings, arranha-céus e tudo o mais; esta cidade é um caos para falar a verdade - e no entanto eu já estou bem acostumado a ela. Mas eu venho aqui mais para fazer um pequenino confessionário de minha vida, porque tenho tido questões difíceis de resolver com os meus filhos, eles me odeiam muito, e é exatamente sobre um deles que eu proponho falar. Eu não sei quem é você, o que você faz, quais são as suas ideologias, as suas ideias, o seu diploma universitário ou sei lá o quê; mesmo assim, quero te contar um pedaço importante da minha vida, e espero que você considere e pense no que eu vou te dizer, principalmente se você ainda for um adolescente vivendo na casa dos pais - e eu digo que você deve obedecer bastante a eles. Bom, primeiramente então começo dizendo sem devaneios nenhuns que o meu segundo filho se suicidou com os seus meros dezesseis anos, se jogou do trigésimo andar do prédio em que morávamos. Ele estava passando por muita coisa na época, eu me lembro apenas vagamente disso - acho que coisas de vestibular, de crise existencial, de se achar mais feio do que os outros, de falta de autoestima, enfim, de tudo o que é ruim e que se amontoa comumente num adolescente da sua idade. Mas eu, como pai sempre rigoroso e severo que fui, como uma pessoa que nunca mesmo teve de passar por isso e se deprimir cabalmente um só dia, como uma pessoa forte e decidida a nunca ser um fraco na vida, a sempre lutar irremediavelmente pelos meus direitos e conquistas, eu estava tão aturdido com o meu trabalho incessante na empresa - a brigar a toda hora xingando os meus funcionários de idiotas imprestáveis, cachorros filhos da puta, etc etc - que eu mal me dei conta de que o meu filho estava precisando tanto assim da minha ajuda, e eu sempre achei que aquilo era só uma bendita duma fase, que aquilo iria passar logo, e que era só deixá-lo virar homem de uma vez, sim! sim! sim!, era assim mesmo que eu falava, na cara dura, diante dele, e ele soltava então pequeninas lágrimas no rosto, e quando eu via aquele choro contido eu jogava furiosamente o prato no chão, estraçalhava tudo, fazia uma balbúrdia que a vizinhança toda ouvia, batia com os meus punhos cerrados sobre a mesa numa violência desmedida, e mandava aquele garoto ir para o quarto, parar de ficar chorando por nada, idiota! idiota! idiota!, eu berrava alto para todo mundo ouvir, e ele ia resignadamente para o seu quarto, numa submissão de morto, numa melancolia de luto. Te confesso que eu sempre fora muito rígido com ele, mas isso faz naturalmente parte de mim, porque eu sempre prezei pela perfeição de tudo, tudo às minhas voltas dentro de casa deve estar sempre perfeito e limpo de modo exímio, de acordo com as minhas máximas exigências, pois que de modo contrário eu escancaro toda a minha raiva para os meus filhos e para a minha esposa, e tento por conseguinte lhes endireitar a ordem, porquanto à bem da verdade eu não acho que eu sou exagerado de modo nenhum, eu apenas acho que isto é uma herança nipônica e eu sou assim mesmo com muito orgulho, haja o que houver, aconteça o que acontecer. Saibas tu que o Japão se ergueu economicamente é às vistas do conservadorismo e da devoção pela perfeição e pelo trabalho e pela obediência - e tudo isso é o que me honra, e tudo isso é o que me traduz os meus valores em palavras bem simples para que tu possas compreender, para que tu possas ver as minhas razões de ser, que eu tenho muita distinção pela minha cultura, pela minha ética, pela minha idiossincrasia. Logo, você bem que deve adivinhar a minha cara quando aquele garoto não me obedecia em muitas das coisas que eu lhe impunha, e quando obedecia fazendo tudo mal feito, tudo por fazer, tudo às pressas, querendo sair logo do meu jugo, pois como aquilo tudo me irritava!, me dava vontade de dar uns esporros na cara daquele moleque imbecil que gostava de coisas de arte, de literatura, e que era um bocado sensível - você é quase uma mulherzinha, eu dizia na cara dele com um riso sarcástico no rosto, vamos!, seja forte!, grite!, se imponha!, fique de costas eretas!, maldito diabos, por que você tem que ficar sempre corcunda?, sempre a olhar para baixo que nem um defunto?, por que diabos você não abre esta boca?, por que você não limpa este chão direito? por que você derruba a comida na camisa quando estás a comer? por que você não faz todas as coisas que eu te mando? hein, hein, hein?, eu berrava isso tudo toda vez que a gente brigava, ou quando eu achava necessário lhe recriminar por alguma coisa, e isso desde quando ele era pequeno, pois ele era um fraco, um tímido, sempre foi assim, e quase nunca me dizia nada nas brigas, sobre as quais todas elas eu sempre ganhava; eu na verdade sempre gostei muito de ganhar as brigas da família, e eu me sinto aliviado um bocado com isso, porque na verdade eu na maioria das vezes estou no lado certo da razão, e eu sinto assim que o meu dever de pai está sendo executado de modo bom, e é por isso mesmo que os meus filhos são hoje exímios profissionais: dois médicos e uma juíza, pode Deus lá me conceder tamanha dádiva?, e somos todos ricos, de bem com a vida, tirando o menino que se suicidou, por cujo futuro eu lhe mandei fazer medicina para honrar com a família, coisa pela qual nós sempre brigávamos e ele me maldizia a Deus com as suas desgraças. Aquele garoto ainda tinha o culhão de vir a mim para reclamar que eu pouca atenção lhe dava, que eu não gostava dos seus amigos, que tudo o que ele fazia para mim nunca me satisfazia, e que por isso sua autoconfiança viera abaixo, que ele se abastecia cada vez mais com uma sensação de inferioridade diante de mim, e que era por minha causa que ele vivia triste, que eu era quase o diabo para ele, tudo isso ele dizia para mim, ao que eu redarquia altivamente, de modo firme e persecutório, que tudo o que ele tinha era por minha causa, que eu era pobre e batalhara desde criança para conseguir cada regalia a que ele desfrutava, que eu nunca tivera infância igual à dele, e que ou ele dormia fora de casa ou ele me obedecia em tudo o que eu mandasse. Depois disso, ele pois me olhou com um ódio violento, sedento de vingança, começou a ziguezaguear pela casa toda a gritar de raiva, a escarafunchar todas as gavetas, surrando as mãos furiosamente no chão, nas paredes, começou a quebrar todos os móveis da casa, arremeçou os pratos de vidro todos janela afora do apartamento, e por fim terminou dizendo: eu prefiro é morrer, seu maldito! seu maldito! seu maldito!, ao que eu lhe retruquei mais que tranquilamente, duvido você se matar, seu moleque inútil, duvido você se matar, isso!, acabe mesmo com a casa!, vamos!, vamos!, você não presta pra nada mesmo, nem mesmo para se matar você presta, seu estúpido imbecil! E nisto mesmo ele então se jogou da janela num átimo, para me satisfazer, para salvar a sua honra e o seu orgulho, conseguira se matar por uma questão de simples desafio, de tamanho ódio que tinha por mim. Pois que eu mesmo não entendi nada nesta história, porque eu sempre quis o melhor para ele, eu sempre batalhara por ele, eu sempre comprei tudo o que ele quis, eu sempre tive dinheiro para satisfazê-lo da melhor forma possível, por que diabos então é que ele estava tão infeliz assim?, eu não entendo, eu nunca entenderei, e os meus outros filhos nem mesmo olham para mim mais, tão cheios de maldição que carregam sobre a minha imagem. Já por parte de minha mulher, ela pediu o divórcio tão logo o fato se consumou - porque todos estavam em casa naquele momento. Demais, desde aquele dia eu vivo na correria do meu trabalho, pois este não acaba nunca, e nem mesmo pedi licença para ficar de luto. Ficar de luto por aquela peste?, pensei, soltei uma risada de escarninho, e continuei assim o meu trabalho todos os dias - sou ainda hoje muito rico, divorciado, pago as mulheres para me satisfazer, e tenho lá com que me manter vivo - isto é o que importa.