quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Num momento com Machado de Assis

Eu lia o conto de Machado de Assis - o conto famoso chamado O Alienista - e percebia nos meus próprios desvãos menos perceptíveis a olhos nus - naqueles lugares enfim onde passamos nós uma vez a cada dois meses ou a cada dois anos ou a cada vida inteira - eu perscrutava aquele conto compenetradamente, como se alguém estivesse logo ali ao meu lado mo impelindo numa ordem severa, talvez o próprio espírito do autor daquela história, e eu temesse olhá-lo de profundo pavor pelo seu espectro fantasmagórico - num farfalhar seco e vítreo das pestes neurais a ecoar palidamente por sobre todo o meu redor - eu dissecava e ruminava e esquartejava aquele conto reiterada e loucamente, tal como se eu fosse um maníaco doentio por alguma beldade e a fosse vê-la e revê-la seu quarto adentro a cada dia de soslaio sem nunca nem mesmo com ela conversar - e as cadeiras da sala onde eu estava começaram a trombetear nas minhas têmporas - e os relógios todos esbravejavam esganiçadamente cada segundo posterior em total dissonia com os tremores dos meus dentes nas crateras de minhas escleróticas - até que por fim, por algum motivo qualquer desconhecido, eu regurgitei uma ideia vinda dos meus nojentos neurônios estomacais - uma ideia apavorante - uma ideia-vômito a luzir o próprio ofício do escritor... - O escritor ele mesmo não seria o próprio alienista? - eu perguntava costurando os meus olhos no escuro da sala toda em derredor como se perguntasse desesperadamente a um Deus invisível - pois que o Dr. Simão Bacamarte não seria eu mesmo enquanto escrevo? - não seria ele os nossos maiores romancistas e poetas da nossa tão abençoada literatura? - não seria ele mesmo, este alienista intelectual e erudito de tudo, também o alienado que sucumbe brutalmente às vezes em suas repetidas tentativas de se chegar a uma verdade universal? - uma pessoa totalmente invejosa e ciumenta e doentia que conspurcasse terrivelmente os ditames da moral num mundo inventado, com o único fito de sequestrar os demais e pô-los submissos a si mesmo, em suas imaginações tão férteis, com toda a liberdade de fazer o que bem quiser com aquelas pobres criaturas, de julgá-las todas e fazer quaisquer considerações delas a respeito, sendo ele mesmo o Deus de sua história, a pessoa única que decidirá os rumos e os desrrumos de cada um ali presente? - E toda essa ficção?, para que serve toda essa ficção a não ser para servir de um consolo existencial, de uma mentira última que nos refulgia do traste, de uma mera defesa errante contra todo o mal que nos aflige enquanto seres humanos?, a transfazer assim magicalmente um toleima numa espécie de esplendor criador de mundos? - Mas o que é tudo isto?!, quá-quá-quá! - eu bradei com todo o sarcasmo a que podia arrebanhar em minha voz famélica, meu rosto vivo e escancarado com sangue pus e sêmen ejaculados num estopim de pólvora - vocês, escritores, não têm nada melhor para fazer?, vocês, artistas sábios e santos, não têm mais o que fazer, a não ser querer ficar vivendo de destaque de tudo, a não ser mendigar pela veneração das demais pessoas? - aliás, pobres pessoas, caem tão facilmente na de vocês, de tão tolas que são! - e naquilo tudo que saía da minha mente de modo tão frenético e estarrecedor, fiquei a pensar que eu estava jogando o ácido da ironia era sobre mim mesmo apenas, era apenas eu que havia naquela sala em meio ao nada, longe de qualquer resquício de civilização, portanto tudo inopinadamente em negritude a não ser pela escrivaninha com o livro clareada pela luz de uma lâmpada carcomida do teto - Eu sou um tanto mesquinho... - murmurei baixinho, com a voz já um tanto mais calma e tíbia, parecia que algo de belo e misterioso se apoderava sobre mim, meu rosto agora totalmente escurecido haja vista a sombra feita de cima pela luz - e digo mais, e digo mais, as pessoas não são nem mais nem menos mesquinhas do que eu, isto é o que eu acho... - o canto de minha boca se verteu lentamente, um sorriso se esboçava em meu semblante irônico, sofredor, idiota - acontece que umas apenas têm de tudo o que querem e podem assim ser um tanto espirituosas, não lhes falta tanto e a sua mesquinhez se esconde muito habilmente por quem as detêm; outras já há em quem muita coisa lhes falte, em quem aquilo que possuem não lhes satisfaça, e assim-assim elas nos parecerem bem mais medíocres do que as primeiras; mas as primeiras só são umas sortudas, ganharam a loteria da vida e esbanjam isso com dignidade, e é sempre com dignidade que vos aparecem, sempre há que se bater palmas a elas. - Mas eu, de minha parte, já não bato palmas a ninguém, e só fico mesmo numa profunda modorra que me agasta e me abisma num vão desmedido de fantasia. - Quem sou eu afinal?, para quem eu escrevo?, por que motivo eu escrevo tanto, se tudo isso é inútil, se tudo isso é um constante desfechar tiros solitariamente no escuro onde não há nada nem ninguém?, eu sou o alienista - escarrei morbidamente - o alienista alienado... - Dito isto, eu solto o mesmo riso patético de sempre, o mesmo fétido riso irônico que eu aprendi com a vida, a minha grande mentora, eu fecho o livro de contos do Machado, a luz se desvanece, o chão dorme, as cadeiras se volateiam em nada, a lua cheia nos exprime graciosamente em arte os arpejos mudos dos poetas, os grilos cantam a solidão das almas - e eu caio num sono terno de ao menos poder morrer por algumas horas.