sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

canção de um amigo cego

oh meu caro amigo - eu tenho de te contar
que eu sou cego, que eu sou cego
eu tenho de te contar
que eu sou cego - e nunca vira nada em vida.
e isto me é uma honra
muito mais que uma desgraça
porque para mim as pessoas
   são puras almas puras todas
sem corpo algum nenhum
   em que se queiram disfarçar.
oh maldito disfarce este
   - ludibrioso sangue demoníaco!
   - tão ludibrioso és tu
           quanto o próprio intelecto maníaco!
as pessoas para mim são pura essência
sem resquício algum de forma
sem vagar nenhum de corpórea presença
e quando eu estou num lugar portanto
eu nunca pela carapaça julgo ninguém
   ninguém julgo eu pela forma
coisa inevitável para vocês que veem
e todas as mulheres me são iguais
e todos os homens me são iguais
diferenciando-se pela forma como me tratam apenas
   e assim percebo a literatura dos demais
   como percebo também eu a cor
a cor da minha persona
              (mistura colorida de negro com branco,
ou de branco com negro)
oh meu caro amigo - eu tenho de te contar
não ter olhos me fez enxergar
me fez enxergar das pessoas
        a sua mais tíbia nudez
como nunca dantes se vira
        com tamanha lucidez...