segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Solilóquios XI

As pessoas nunca sequer olharam para mim - eu digo.. antes do acontecimento.. porque depois elas passaram a me odiar. A única pessoa talvez que tenha dado algum amor / alguma proteção / algum carinho para mim quiçá seja mesmo o meu irmão - pessoa pela qual eu confesso que guardo a minha maior estima. Até hoje ele me vem visitar aqui no presídio às vezes, e eu converso com ele sobre coisas da carochinha sempre que ele vem, e nós damos umas risadas tão toscas e altas que o guardinha até nos chama a atenção hora ou outra. Ele vem aqui todo mês e me atualiza todo o livre desenrolar de sua história - sobre como está a mãe, se ela já se convalesceu de suas doenças e depressões, se o tio já voltou do exterior, se o pai porventura já me perdoou, e se o pai ainda passeia todo dia pelo parquinho lá perto de casa, se o seu filhinho está bem, e que o menininho já começou a dar os primeiros passinhos, e que as suas coisas estão meio duras porque sua mulher briga com ele quase todo dia... - tudo isso ele me conta, tudo isso ele me traduz em palavras de um linguajar suave e sereno, e eu ouço tudo aquilo com um olhar grave de quem saboreia as suas palavras a modo de um poeta. O senhor bem que me vê - eu sou um fudido, passei a vida toda a servir mesas para ricos resignadamente tal qual eu fosse um burro humilde e submisso - aliás, nunca que eu seria amigo daqueles caras todos bem-vestidos e de bem com a vida - ou ainda a costurar os silêncios nas portarias dos apartamentos, servindo de segurança. Eu era forte naquele tempo de outrora - eu dava um bom segurança de ricos com certeza, e aqueles filhos da puta me usavam bem. Confesso que me alarmava bem mais com pessoas mais escuras que com claras - eu não sei o que era - talvez pressentimento eu não sei - e certa vez um estudante me veio explicar que isso era puro preconceito, que tudo isso era uma grande bobagem, que era uma pregação da mídia e sabe-se lá o quê. Eu juro que até entendi e comprei absolutamente a ideia daquele garoto simpático, mas ainda assim eu ficava em mais puro alarme quando me vinham negros por perto, ainda que bem vestidos, e eu pensava comigo mesmo: o que eu posso fazer?, eu não vou ficar me condenando todo por causa de uma coisa dessas, será que eu posso mudar isso em mim?, sei lá, que se dane, e então eu ficava lá no normal mesmo, todas aquelas horas olhando tediosamente para o escuro que se inflava à medida que se nos íamos afastando do prédio que eu guardava tão religiosamente. Eu digo que não mudou muito sabe - dos meus trabalhos um tanto chatos e aborrecidos ao presídio eu até prefiro este último, porque aqui ao menos eu tenho bastante tempo para ler - o meu irmão traz toda espécie de livro aqui preu ler e eu leio então. É curioso porque toda a minha vida idiota vira uma espécie de grandiosidade tremenda nos livros. Deve ser até por isso que esses grandes literatos liam tanto, para se afastar de seus próprios problemas, para se surrupiar da chatice de seus mundos para a poesia do mundo ficcional. Diria eu que um grande escritor pode até ser um grande escritor nos seus tantos textos, mas ele o será só por lá mesmo, porque na vida real-real ele deve de ser um tanto medíocre eu acho - eu aposto nisso... Agora tu querias saber mais a respeito do acontecimento em si, não é mesmo? Bem - eu juro que não tem muito o que falar, a não ser que fora algo tão instantâneo quanto violento, e tão violento quanto natural, e tão natural quanto grotesco, e que se eu fugisse correndo daquela garota com as minhas máximas forças, talvez as minhas vísceras da tentação pudessem se acalmar mais suavemente, se tornar um tanto menos intumescidas pela cor do pecado carnal; o vermelho debruado pela lascívia do eros, o sangue tangido de negro manto de dor, e o instantâneo gozo branco advindo das minhas diabruras colossais - tudo isto resultou depois na pior sensação que eu pudera ter tido em toda a minha vida, antes do acontecimento e doravante; um segundo após o clímax da minha desdita, eu caí nas masmorras da realidade mais horrorosa em que eu me via desnudo perante o rosto da minha vítima - ela toda transida de total repulsa e nojo pela minha pessoa, misturado com um quê de medo e ódio mortais - ela tremia toda em posição defensiva, com os seus braços firmemente recolhidos ao seu peito frio e inerte, cabalmente nua, feito um ser frágil que Deus colocara nos meus braços para fazer a nós - seres humanos - rirmos de desgraça... Eu então tirei o meu órgão estúpido de sua cona, e de lá saiu um líquido espesso vermelho-claro - uma aurora de Drummond - e eram todo sangue e sêmen juntos espetacularmente untados do máximo de dor com o máximo de prazer, filhos portanto da eterna sina humana nessa Terra, de sermos todos uma contraditória resposta do que não houve pergunta, de sermos todos uma paisagem toda síntese da desgrama e da alegria, e de termos que conviver com isto resignadamente se não optarmos pelo suicídio. Eu queria falar com ela, me desculpar por tudo, pedir perdões mil de não caber em ouvidos humanos, explicar que a vida nunca me dera oportunidade para conhecer mulher, que ninguém nunca olhara para mim com amor e que também nunca olhará a não ser com desprezo e ódio, e que aquilo fora fruto da mais pérfida inocência e infelicidade do destino, que eu me arrependo profundamente de ter aquilo feito, e que eu poderia ajudá-la de alguma forma, dando-lhe o pouco de dinheiro que eu tinha - mas não, tudo isso seria uma grande estupidez, uma idiotice sem tamanho, e ela pois começou a gritar pedindo socorro, e eu caí de banda ao seu lado, petrificado e sujo, como se eu mesmo tivesse sido a vítima de meu próprio estupro. Eu olhava ela toda e imaginava como ela devia ser com os seus amigos, em festejos de fim de ano, com a sua meiguice e feminilidade garbosas, servindo de musa inspiradora para poetas aspirantes a escritores - eu olhava para ela e pensava em como ela devia ter um condão natural para a simpatia, e em como eu havia ferido aquela simpatia - e aquilo poderia não ter volta, ela poderia se tornar uma pessoa triste e depressiva para sempre, e por culpa minha... Maldição, eu pensei, por que diabos Tu, Deus, me deste tão pressurosa ignomínia?!, Tu, maldito Deus, ficas sempre mais belo e formoso de tudo porque Tu mesmo não tens um corpo, e um corpo diz tudo!, diz tudo!, diz o rumo da História mundial, diz a prédica do padre da Igreja, diz a rota tomada pelo galanteio e pela inveja e pelo ciúme, diz a felicidade e a tristeza, diz o sumo de toda estória presente na literatura universal, diz o que eu faço e o que eu não faço, diz tudo!, maldito Deus, e Tu não tens isto, coisa fundamental de todos nós, míseros humanos canoros e plangedores; como podes então Tu nos julgar assim tão soberano sobre todos nós?, a julgar tão ingenuamente se vamos para o Paraíso ou para o Inferno?, Tu mesmo não sabes como é, Deus, ser um humano como eu, ter um corpo animal, advir de Darwin, advir de Freud, ser um frágil e estúpido humano! Eu queria ser como Tu, ah! como eu queria, ter apenas um espírito sem corpo algum, não sentir necessidade nenhuma do sexo oposto, de atrair fêmea, não sentir necessidade nenhuma de me alimentar, nem de ser melhor em nada - e ficar apenas a abençoar esses seres humanos néscios que somos nós; Tu és um vitorioso e um sortudo, podes ter certeza. E enquanto eu pensava em tudo isso com toda a raiva do mundo, parece que toda a raiva do mundo viera realmente se amontoar em mim num átimo; pois que várias pessoas vieram socorrer a garota, e outras muitas passaram a me dar pauladas com ferros e chutes e socos tão fortes que eu fiquei todo fremido de equimoses, sangramentos lúbricos de azeviche, e foi assim mesmo, deformado por toda volúpia de vingança, que eu desmaiara e acordara uma semana depois num hospital público todo enfaixado da cabeça aos pés - a cara deformada, as pernas inteiras em paralisia, a mente não conseguindo atinar com muitas lembranças de uns meses atrás... Foi assim, meu caro senhor - e desde aquele momento eu só mesmo fico a ler livros e livros na cela da prisão, a bebericar o pouco de sol que eu consigo tragar, e a esperar o dia em que meu irmão vem me visitar - porque os meus pais me odeiam, sempre me odiaram aliás, desde quando eu fugi de casa... Tu perguntas para mim se eu me sinto culpado por tudo isso e por toda a minha vida? Bem, eu tenho o demônio dentro de mim - tu bem o sabes - mas às vezes eu me pergunto se esse demônio não é na verdade uma criança mimada e carente travestida de demônio, ou ainda se não é esse animal dos mais animalescos com o escancaro de demônio em verdade o que se encontra escondido às boas em cada um de nós; às vezes eu acho isso - e é tudo, eu não tenho mais o que falar, me perdoe senhor, vou-me indo embora... a dor é muita e vou-me indo embora... Adeus...