sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A minha vida

A minha vida é um minúsculo e mínimo ponto-de-vista,
envolta da qual se divisam as correntezas magníficas e eternas,
a que eu, sozinho, nunca serei capaz de bem compreender,
e mediante as quais todas elas se retroalimentam
e se retrodestroem, com uma capacidade infinita e acelerada
de criação mesclada com mortificação redentória.
Da humanidade criar a bomba atômica e tudo destruir
é só um mínimo passo mínimo de tempo geológico,
condição segundo a qual tudo ocorre
sem que tenhamos domínio algum nenhum
por sobre cada um de nossos fados
por sobre cada um de nossos olvidos;
tudo convergindo em catástrofe
e tudo convergindo em olvido de catástrofe,
num ciclo peremptório a que nós seres humanos
só muito ilusóriamente
pensamos que temos algum domínio sobre;
pois que, se é certo que há tempos de ampla virtude,
também não é menos certo que destes se seguem
tempos execráveis de explosão impassível
de tudo quanto tentamos sempre inutilmente afogar.
A minha vida nada representa
não porque eu nada seja em um meio intelectual reconhecido,
ou porque eu pouco dinheiro ou reputação social tenha,
porquanto que tudo isso não passam de frivolidades de alma.
A minha vida nada representa, em verdade,
porque por mais que vejamos um translúdico céu ensolarado,
se pensarmos a bem a fundo por detrás desta epifania,
se me restaria apenas um universo negro prenhe de estrelas,
em cujo lugar, se eu até lá chegasse por algum acaso qualquer,
seria eu tão parvo e insignificante quanto o mais néscio dos homens.
Quanto mais e mais eu escrevo sobre o que eu penso e sou,
tanto mais e mais eu limito a vida inteira numa caixola sem alma.
Quanto menos de mim houver em tudo quanto escrevo;
e quanto mais houver de vozes infindas e transitórias;
uns se sobrepondo a outros que nem pisássemos
em formigas ligeiras que correm atrás de seus alimentos;
quanto mais humilhações houver de uns sobre outros;
nada fazendo sentido com tudo fazendo sentido;
cada qual a vomitar com nojo por sobre o inimigo;
e o inimigo de todos sendo também os todos enfim;
quanto mais hiperbólico for esse assistema;
quanto menos de mim houver nessa pluripartição de realidade;
quanto menos eu acumular de amor-próprio e de defesa de ego;
tanto mais se servirá, como numa sucessão de eventos sem-nexo,
a arte, a compor satisfatoriamente o que seria a minha vida.
Um lugar, enfim, onde ela, a vida, não tem espaço, ou porque
o universo espaço-temporal lhe esgoele e lhe esmague em demasiado,
ou porque a multiplicação de tantos outros eus lhe torture e lhe retalhe
como que num porão hiper-lotado onde nos faltasse ar.
O que é a minha vida? o que são as nossas vidas?
A resposta só me viria por contraposição ao que ela não é,
ao tudo que contra ela se lhe repercute em sonoridade latente,
visto que uma definição de dentro para fora só lho embairia.
O que é a minha vida? eu não sei, pouco isto me importa,
e não sou eu de verdade quem escrevo em quando escrevo.

sábado, 14 de outubro de 2017

Uma tarde num café

Quantos mundos diversos nós não desconhecemos por aí,
simplesmente por sermos tão limitados a nós mesmos?

Eu abro livros que me interessam.
Percorro livrarias que me interessam.
Converso com pessoas que me interessam.

E a cada interessar-me distinto reitero
um desinteresse muito maior
por uma quantidade muito maior de livros;
uma recusa completa de pessoas e de livrarias;
um virar-as-costas absoluto contra uma multidão.

Afinal de contas,
ao se me imiscuir tão completamente por autores literários,
quantas situações e ambientes existenciais
eu os não deixo desapercebidos por aí?

Passo, por exemplo, nove horas num café lendo tranquilo,
relanceio dois ou três olhares para as atendentes,
e de tão empolgado que me mantenho com o livro,
não percebo em absoluto o mau humor de uma funcionária.

Eu me importo para com ela?
É óbvio que não; me importaria só em kantianamente,
ou falsa e abstratamente como o fazem sempre
os poetas líricos e os religiosos.

Mas eu fico curioso em saber qual o julgamento dela
a respeito de tudo aquilo: os clientes ricos,
os agradecimentos falsos, os olhares de desdém
a ela voltados, o fingimento da sua não-existência,
o dever que ela possui de tratá-los bem,
ao contrário do qual receberia uma chamada de atenção
ou mesmo um xingamento perverso de um cliente,
e os todos muito-obrigados ditos robóticamente.

Eu peço um capuccino pequeno e um pão-de-queijo.
Ela me vem e me traz tudo às exímias perfeições.
Um pão-de-queijo quentinho esquentado na hora,
e um capuccino cremoso com um desenhinho em cima,
talvez um desenho de uma flor viçosa e transparente.

Eu lhe agradeço em bom tom
e lhe faço um leve sinal com a cabeça.
Ela me não diz nada, nem mesmo me olha,
e vai-se embora.

Por que coisas passou ela naquele dia?
Por que coisas passou ela em sua inteira vida?
Qual é o tamanho de seu ódio por todos os clientes?
Quanto já não sofreu em vida para estar ali?
Já teve namorados?, já amou?, ou mesmo
fez já algo que lhe gratificou de um tanto a existência?

Os clientes vêm todos em grupos,
se sentam em duas a cinco pessoas,
se riem e se gargalham entre si,
falam mal de um tanto de gente,
se sentem libertos por poderem finalmente
ser sinceros com alguém em vida,
fazem confissões boas ou más,
se divertem uns com os outros aos bocados.

As garçonetes lhes trazem os lanches e os cafés,
eles agradecem sem perceber que agradecem,
eles comem sem perceber que comem,
pagam a conta e vão-se embora.

O que é toda aquela conversa sobre arte,
sobre política, sobre literatura e sobre fofocas
para aquela funcionária de mau humor?

Ela os olha como se olhasse para uma parede,
esperando tediosamente que alguém lhe acene
para que possa atendê-lo ligeira,
ou esperando também a hora de ir-se embora.

O muro que se ergue entre clientes e funcionárias
é ali de um volume tão grande quanto invisível.
Gritasse a funcionária um pouco mais alto em rebelião,
e este muro lhe cairia em cima tão pesado quanto invisível.

Os clientes muito provavelmente se sentem satisfeitos.
Se orgulham, por exemplo, de terem nascido
em época de tantos direitos conquistados,
de tantas tecnologias engendradas,
chegando mesmo a algum tipo de inteligência artificial,
e assim permanecem convictos da beleza de sua era.

Eu continuo a ler.
Eu continuo a observar as pessoas.
Eu continuo a observar aquela funcionária.

Mas, de repente, eu sinto vergonha.
Eu sinto vergonha, de repente. Uma espécie inaudita
de asco e nojo por mim mesmo. De repulsa mesma
pela funcionária e pelos clientes, pelo pão-de-queijo,
pelo meu livro, e pelo capuccino; tudo o qual
se me revira com um gosto amargo em minha boca.

Eu sinto vergonha de tudo e de todos,
e me pergunto pelo porquê de eu estar lendo aquele livro
em sendo que o mundo de todas aquelas pessoas naquele café
permanecem-me tão incógnitos quanto já o era
antes mesmo de eu aprender a ler.

A pergunta de sempre me repassa pela cabeça
mais uma vez, dentre tantas outras vezes
que já passaram e que ainda estão por passar:
pois que conheço eu, de fato, aquelas pessoas?

Será que tudo isso o que eu descrevi
não seria apenas uma formulação do que eu penso
que vejo, um conjunto inerte de tudo quanto eu sei
a respeito do mundo e de mim mesmo,
e que eu mesmo projeto nas pessoas?

O poeta, ao descrever as pessoas,
não estaria por si só incorrendo ao erro
de descrever apenas a si mesmo
ou apenas as suas inúteis ideias?,
se tornando o descrever de si mesmo
não tanto um atestado reprovável de egolatria
quanto uma mera e pura sinceridade
de escrever só mesmo sobre o que sabe de fato?

Ou o mesmo com a Natureza.
Em se a fazendo descrita, quem ele descreve
a não ser a si mesmo projetado na Natureza?

Quantos mundos diversos nós não desconhecemos por aí,
simplesmente por sermos tão limitados a nós mesmos?

A funcionária, afinal, não gosta de seu trabalho.
Queria ela estar em outro trabalho, mas ocorre que,
devido às suas condições, não lhe restou tanta opção.
Só faz ela o que lhe pedem no serviço,
o que é o necessário para o seu sustento.
A sua relação com os clientes é feita
somente no âmbito profissional, pois que é só isso
o que lhe compete, e isto ela faz
de modo um tanto eficiente e preciso.
Infelizmente, ela se separou do marido,
e eles vivem em brigas judiciais por motivo
dos filhos, os quais lhes preocupam
pois pouco tempo possuem para educá-los,
e é um e outro brigando todos os dias
pela custódia deles.
Como poderia ela sorrir feliz ainda,
com os seus tantos problemas financeiros de dívidas
a pagar? A sua mente se abastece de problemas.
Tantos problemas quanto se é possível imaginar.

E os clientes ali só querem falar a respeito
do assunto que tanto lhes apraz: o cinema.
Saiu um filme novo, e eles acabaram de o assistir,
e querem debater sobre o assunto de maneira descontraída.
Porquanto que passaram a semana também com problemas,
muito atarefados em seus respectivos trabalhos,
além de terem tido um tanto de tarefas domésticas,
e de terem brigado com as suas respectivas esposas,
como sempre por causa de questões ínfimas.
Para que diabos, portanto, iriam se preocupar
com a mulher que lhes serve o café, em sendo
que tantas e infinitas questões lhes passam de por-já
pelas suas mentes no mais comum e ordinário dos dias?
O que se ganha em se prestando uma mínima atenção
a uma pessoa totalmente desconhecida
que me serve o café e o pão-de-queijo
numa tarde em que almejo só mesmo é me divertir?

E ainda, aquele jovem ali de uns vinte anos,
que tanto gosta de estudar, e que passou
umas nove horas diretas aqui lendo Proust.
Sim, ele!, por que diabos ele não cala a boca,
lê o seu livro na sua, e simplesmente
não se vai embora sem ficar nos analisando,
achando muito ingenuamente
que sabe alguma coisa a nosso respeito,
sendo que sabe é coisa nenhuma de nada?!

Oh!, valha-me Deus por esta espécie de homens
chamados homens das letras! Malditos...
Quando é que eles extinguir-se-ão afinal?!